Cotas: O ensino da compensação.
Para compreender a inconveniência do sistema de cotas é necessário analisá-lo em face de algumas falácias que distorcem a função do sistema de ensino brasileiro. Ao contrário do que se costuma propalar, a Universidade no Brasil tem seu papel superestimado. É ao mesmo tempo reduto de esperança para a construção de uma sociedade mais justa e ponte direta ao paraíso da ascensão social, mas, em razão da deturpação de seu propósito, acaba vulgarizada e desnaturada.
A leitura que o discurso dominante faz da questão das políticas de inclusão no Ensino Superior segue uma progressão determinada. Primeiramente, evidencia-se um problema: uma desigualdade social profundamente enraizada em nosso passado; a seguir, vislumbra-se uma constante: há uma predominância de alunos brancos e oriundos de colégios privados que se valem de diplomas universitários para manter sua condição financeira privilegiada em detrimento dos demais; a resposta então parece simples: distribuindo de forma mais igualitária o acesso ao Ensino Superior, promovem-se inclusão e justiça social. É assim que, em geral, introduz-se a questão da necessidade das cotas para a promoção de tais fins.
Por outro lado, a crítica ao sistema de cotas é costumeiramente entoada em ladainha já conhecida cujo refrão retoma sempre dois pontos principais: é inevitável a degradação do ensino de determinada instituição em razão do ingresso de alunos menos preparados e, no caso das cotas raciais, é absurdo o critério relevado, é discriminatório e de difícil aplicação em face da impossibilidade de especificação racial satisfatória dos candidatos.
Tal abordagem é válida, mas não satisfaz a discussão. O lugar comum dos argumentos apresentados é da mesma simplicidade que o programa de cotas defendido pelo discurso hegemônico. Atém-se à solução sem atentar ao fato de que a inconsistência principal está na leitura do problema, no que se acredita ser o papel do ensino na sociedade, especialmente o Ensino Superior. As Universidades brasileiras estão cada vez mais abarrotadas de “cursos técnicos” de quatro anos repletos de alunos que não se interessam por metade do conteúdo dado, mas, sim, por uma fração de conhecimentos aplicados e, claro, pelo diploma que lhes garantirá a chave do ambicionado mercado de trabalho. A ambição financeira não é o que deturpa a Universidade, mas, sim, a ilusão do curso superior como única trilha para uma vida de realização. O diploma, em cursos como o Direito, vale mais por ostentar uma instituição de difícil acesso e comprovar a origem social do aluno do que por ser um atestado de proficiência e profundo saber na área em que se graduou. Pode-se ver isso diariamente nas seleções de estagiário e na dinâmica de aprendizado dos escritórios e tribunais.
Apesar disso, não se costuma questionar tanto a estrutura em si, pelo contrário, defende-se com vigor uma distribuição mais justa do acesso ao jogo, seja por cotas, seja por investimento público em bolsas ou em expansão do Ensino Superior. Não se cura a doença, distribuem-se de forma mais “justa” os sintomas. Continue reading ‘Cotas: O ensino da compensação.’
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